Enquanto

Quincas Borba

Machado de Assis · Clássicos da literatura brasileira

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Sobre esta obra

Rubião herda a fortuna do filósofo Quincas Borba e a filosofia do Humanitismo. Romance de 1891.

Um trecho

Que abysmo que ha entre o espirito e o coração! O espirito do ex-professor, vexado daquelle pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assumpto, uma canoa que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? Elle, coração, vae dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma filha... --Bonita canoa!--Antes assim!--Como obedece bem aos remos do homem!--O certo é que elles estão no ceu!

Um creado trouxe o café. Rubião pegou na chicara, e, em quanto lhe deitava assucar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metaes que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era materia de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um Mephistopheles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja,--primor de argentaria, execução fina e acabada. O creado esperava tezo e serio. Era hespanhol; e não foi sem resistencia que Rubião o acceitou das mãos de Christiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus creoulos de Minas, e não queria linguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter creados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pagem, que elle queria pôr na sala, como um pedaço da provincia, nem o pôde deixar na cosinha, onde reinava um francez, Jean; foi degradado a outros serviços.

Capítulos

Fonte e licença

Domínio público: o autor faleceu em 1908, há mais de 70 anos (Lei 9.610/98, art. 41). Texto da edição digitalizada pelo Projeto Gutenberg.